TMT

Se não me falha a memória – e aqui tenho quase certeza que ela está bem – fazem 3 anos que escutei, pela primeira vez, um amigo afirmar que toda “empresa é a cara do seu presidente”, na época a frase parecia ter uma certa lógica, mas só consegui entender a plenitude do conceito tempos depois, quando comecei a conhecer mais empresas e seus respectivos presidentes, diretores e proprietários. Hoje concordo com este sábio amigo, que estende o seu conceito falando que “como a empresa tem a cara de seu presidente, os setores tem a cara de seus gerentes”. Sábias palavras.

É engraçado como a vida é cheia de pontos e vamos ligando-os com o passar dos anos. Há um ano, comecei a trabalhar na dissertação do meu mestrado e depois de muitas idas e vindas, cheguei no tema: “A Alta Administração como recurso estratégico”, até ai, nada de extraordinário. “Minha surpresa” se deu quando, ao pesquisar para a referência bibliográfica, encontrei um artigo escrito por Donald Hambrick, em 1984, de título “Alto escalão: a organização como um reflexo de sua alta administração”: gol! É isto mesmo, as idéias daquele sábio amigo confluíam com este artigo, na verdade, confluíam com a obra de duas décadas de Hambrick, que mostrou que várias características dos gestores influenciam diretamente nos resultados da organização.

No artigo de 1984, considerado como artigo seminal do tema, Hambrick apresenta a perspectiva do Alto Escalão (figura abaixo), onde as características psicológicas e perceptíveis da Alta Administração influenciam na escolha estratégica, que por sua ver direcionam os resultados.

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O artigo é extremamente rico e desenvolve 21 proposições que são utilizadas até hoje como direcionadoras de pesquisa do tema:

1. Empresas com gestores jovens estarão mais propensas a seguir estratégias mais arriscadas que empresas com gestores mais velhos. Tendo como exemplo de estratégias mais arriscadas: diversificação independente, inovação em produtos e alavancagem financeira;

2. Empresas com gestores jovens terão maior crescimento e variação de rentabilidade em relação a média do setor, do que os gestores mais velhos;

3. Haverá uma relação positiva entre o nível de experiências em atividades externas da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO e a medida em que a empresa destaca atividades externas na sua estratégia. Indicadores que mostra a ênfase em atividades externa são: inovação de produto, diversificação, publicidade, e integração para frente;

4. Haverá uma relação positiva entre o nível de experiência em atividades meio da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO e a medida em que a empresa destaca atividades meio na sua estratégia. Indicadores que mostra a ênfase em atividades meio são: automação, novidades em equipamentos e instalações e integração para trás;

5. O nível de experiência da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO com atividades externas estará positivamente relacionado com o crescimento da empresa;

6. Em setores de commodities ou estáveis, a experiência da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO com atividades meio estará relacionado positivamente com a rentabilidade;

7. Em setores turbulentos ou que predominam a estratégia de diferenciação, a experiência da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO com atividades externas estará relacionado positivamente com a rentabilidade;

8. O nível de experiência em atividades periféricas da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO será positivamente relacionada com o nível de diversificação independente da organização;

9. O nível de experiência em atividades periféricas da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO será positivamente relacionada com a complexidade da administração, incluindo sistemas de planejamento formal rigoroso, complexidade das estruturas e dispositivos de coordenação, orçamentos detalhados e rigorosos e complexo sistema de incentivo e compensação;

10. O tempo de experiência interna na organização da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO está negativamente relacionado com as escolhas estratégicas envolvendo novos terrenos, por exemplo, inovação de produto e diversificação independente;

11. Para uma organização em um ambiente estável, o tempo de experiência interna na organização da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO será positivamente relacionado com a rentabilidade e crescimento da organização;

12. Para uma organização em um ambiente turbulento, o tempo de experiência interna na organização da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO será negativamente relacionado com a rentabilidade e crescimento da organização;

13. A quantidade, mas não o tipo, de educação formal da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO está relacionado positivamente com a inovação;

14. Não existe relação entre a quantidade de educação formal da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO e desempenho médio (lucratividade ou crescimento) das suas empresas. No entanto, as empresas cujos gestores tiveram pouca educação formal de gestão irão apresentar maior variação de desempenho da média do setor comparado com os gestores mais qualificados formalmente;

15. As empresas cujos gestores tiveram maior educação formal em gestão serão mais complexa administrativamente do que as empresas cujos gestores tiveram menos dessa formação. Exemplos de complexidade administrativa incluem rigoroso sistema de planejamento formal, complexa estrutura e dispositivos de coordenação, orçamento detalhe e rigoroso e complexo sistema de incentivo e compensação;

16. As empresas cujos gestores provêm de grupos socioeconômicos mais baixos tendem a seguir estratégias de aquisição e diversificação independente;

17. Estas empresas irão sentir uma maior variabilidade de crescimento e lucratividade do que as empresas cujos gestores provêm de grupos socioeconômicos mais elevados;

18. A rentabilidade corporativa não está relacionada com a percentagem de ações em pose dos executivos da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO, mas é positivamente relacionada com a porcentagem do total das receitas da EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO que derivam de salários, bônus, dividendos, e assim por diante;

19. EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO homogêneas irão tomar decisões mais rápidas que EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO heterogêneas;

20. Em ambientes estáveis, EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO homogêneas estão positivamente relacionadas com a rentabilidade;

21. Em ambientes turbulentos, EQUIPE ALTA ADMINISTRAÇÃO heterogêneas estão positivamente relacionadas com a rentabilidade.

O engraçado é que apesar da importância deste tema, quase nenhuma pesquisa foi realizada no Brasil sobre o mesmo…

… até agora!

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